Ser coroa não é viver apenas a plenitude dos dias presentes: é muito mais! É tentar se fazer de forte e não chorar diante dos filhos a morte de um ídolo. Mas ser coroa, muitas vezes, também significa não sustentar o choro repentino ao ouvir alguém falar de um ente querido que fez morada no céu. É saber extrair o sorriso dos fatos cotidianos na dose certa para que depois não digam que está sendo indiferente. É pensar que se tem o controle das emoções e, definitivamente, ter a surpresa de que não o tem. É encontrar-se meio bobo, quando seu filho lhe conta como fez um gol pelo time da escola, e ficar profundamente pensativo perante a velocidade com que a vida se dirige pelas asas da ciência e, ao mesmo tempo, perceber às tontas os mistérios que a ciência não consegue explicar.
Ser coroa é estar na faixa dos cinqüenta, pensar que tem quarenta e ser confundido com um de sessenta. É usar um óculos Rayban, uma calça jeans, um velho par de tênis brancos e encolher a barriga ao vestir a camisa de meia, depois lembrar-se dos anos setenta e ainda se achar com ar de Robert Redford. É não esquecer os amigos e sempre dar um jeito de encontrá-los, de preferência em um bar. Ficar em dúvida entre a cerveja e o uísque, ter certeza de que vai ouvir e contar algumas leves mentiras, rir bastante das mesmas piadas em novas versões, falar de futebol e política, uma vez que está demodê falar de mulher, a não ser que ela seja bonita.
Mas, de repente, a camisa ficou apertada e teve que ir para fora do coes da calça. Os óculos foram retirados do rosto já suado e, antes que o celular lhe localizasse, sua voz alterada lhe denuncia umas doses a mais, então, a realidade lhe bate à porta da consciência e diz que é hora de ir para casa.
Ser coroa é jogar com os amigos do seu filho, porque é difícil encontrar pessoas da sua idade que ainda praticam futebol. É ver a bola passar a meio metro de seus pés, não conseguir dominá-la e, automaticamente, simular uma distensão, para, em seguida, entrar no lance e fazer o gol da vitória na garapa e comemorar aos pulos, feito criança, como se tivesse sido curado da contusão por milagre. Ser coroa é receber um elogio de uma moça de vinte e poucos anos, ficar envaidecido e logo lembrar que tem uma filha da mesma idade da tal menina atrevida, e aí desmoronam-se todas as fantasias – nesse instante, percebe que não se deu conta que os filhos cresceram tão rapidamente. É saber que as mulheres estão cada vez mais ousadas e que isso lhe dá medo, afinal, não pretende trocar a relativa calmaria da relação com a esposa pelas atribulações de mulheres jovens, ainda que atrativas.
Ser coroa é passar uma vida inteira fazendo poupança em dinheiro para o caso de uma necessidade em família e não hesitar em gastar parte dessa grana no carnaval carioca, em companhia de uma boa mulata de escola de samba e num hotel cinco estrelas, afinal, pode ser sua última aventura e ninguém é de ferro.
Ser coroa é também ler a biografia de um santo e refletir seriamente sobre os valores éticos e morais da vida, ficar melancólico e se arrepender de todas as besteiras que fez pela estrada. É rezar com mais compaixão, é continuar se encantando com o nascer e o pôr-do-sol, é lembrar-se das injustiças e se agarrar na esperança como única opção. É amar com ares de professor, paciência, tato e generosidade no prazer, como quem quisesse compensar a beleza, a vaidade e o vigor dos verdes anos.
Ser coroa é sonhar com a aposentadoria e cantar loas ao tédio. É ficar maravilhado com a leitura de um artigo no jornal e descobrir que deveria ter estudado mais a questão quando moço. É não querer aderir a nenhuma moda, coisa superficial e consumista que faz os outros idiotas. É saber a hora de voltar para o seu aconchego, seja casado ou solteiro, e tomar um prato de sopa de legumes para melhor enfrentar a noite. É ter projetos, seja o que for, e ficar com a certeza que é isso que dá rumo a vida, mesmo que não ganhe dinheiro, não fique famoso e nem conquiste poder nenhum.
Ser coroa é se sentir feliz por sua geração ter chegado ao topo e dar graças a Deus por não precisar dos favores de amigos, principalmente, dos políticos. É demonstrar independência aos desconhecidos e sentir saudade dos verdadeiros amigos, que começam a diminuir. É evitar uma neblina ocasional com pavor de ficar resfriado e, mesmo assim, falar aos outros que tem uma saúde invejável. É ter uma esperança juvenil nos ecologistas e perceber que suas opiniões estão na corda bamba, mas que não ter opinião formada o deixa contente.
Ser coroa é olhar com uma saudade displicente para o brotinho e com um carinho distante para o gagá, embora sinta-se um sanduíche – quente, frio, doce ou amargo – diante da boca que vai dar-lhe uma dentada.
Ser coroa é manter a chama acesa, mesmo que às vezes ela esteja, por um instante, apagada.
Saraiva Júnior
Ser coroa é estar na faixa dos cinqüenta, pensar que tem quarenta e ser confundido com um de sessenta. É usar um óculos Rayban, uma calça jeans, um velho par de tênis brancos e encolher a barriga ao vestir a camisa de meia, depois lembrar-se dos anos setenta e ainda se achar com ar de Robert Redford. É não esquecer os amigos e sempre dar um jeito de encontrá-los, de preferência em um bar. Ficar em dúvida entre a cerveja e o uísque, ter certeza de que vai ouvir e contar algumas leves mentiras, rir bastante das mesmas piadas em novas versões, falar de futebol e política, uma vez que está demodê falar de mulher, a não ser que ela seja bonita.
Mas, de repente, a camisa ficou apertada e teve que ir para fora do coes da calça. Os óculos foram retirados do rosto já suado e, antes que o celular lhe localizasse, sua voz alterada lhe denuncia umas doses a mais, então, a realidade lhe bate à porta da consciência e diz que é hora de ir para casa.
Ser coroa é jogar com os amigos do seu filho, porque é difícil encontrar pessoas da sua idade que ainda praticam futebol. É ver a bola passar a meio metro de seus pés, não conseguir dominá-la e, automaticamente, simular uma distensão, para, em seguida, entrar no lance e fazer o gol da vitória na garapa e comemorar aos pulos, feito criança, como se tivesse sido curado da contusão por milagre. Ser coroa é receber um elogio de uma moça de vinte e poucos anos, ficar envaidecido e logo lembrar que tem uma filha da mesma idade da tal menina atrevida, e aí desmoronam-se todas as fantasias – nesse instante, percebe que não se deu conta que os filhos cresceram tão rapidamente. É saber que as mulheres estão cada vez mais ousadas e que isso lhe dá medo, afinal, não pretende trocar a relativa calmaria da relação com a esposa pelas atribulações de mulheres jovens, ainda que atrativas.
Ser coroa é passar uma vida inteira fazendo poupança em dinheiro para o caso de uma necessidade em família e não hesitar em gastar parte dessa grana no carnaval carioca, em companhia de uma boa mulata de escola de samba e num hotel cinco estrelas, afinal, pode ser sua última aventura e ninguém é de ferro.
Ser coroa é também ler a biografia de um santo e refletir seriamente sobre os valores éticos e morais da vida, ficar melancólico e se arrepender de todas as besteiras que fez pela estrada. É rezar com mais compaixão, é continuar se encantando com o nascer e o pôr-do-sol, é lembrar-se das injustiças e se agarrar na esperança como única opção. É amar com ares de professor, paciência, tato e generosidade no prazer, como quem quisesse compensar a beleza, a vaidade e o vigor dos verdes anos.
Ser coroa é sonhar com a aposentadoria e cantar loas ao tédio. É ficar maravilhado com a leitura de um artigo no jornal e descobrir que deveria ter estudado mais a questão quando moço. É não querer aderir a nenhuma moda, coisa superficial e consumista que faz os outros idiotas. É saber a hora de voltar para o seu aconchego, seja casado ou solteiro, e tomar um prato de sopa de legumes para melhor enfrentar a noite. É ter projetos, seja o que for, e ficar com a certeza que é isso que dá rumo a vida, mesmo que não ganhe dinheiro, não fique famoso e nem conquiste poder nenhum.
Ser coroa é se sentir feliz por sua geração ter chegado ao topo e dar graças a Deus por não precisar dos favores de amigos, principalmente, dos políticos. É demonstrar independência aos desconhecidos e sentir saudade dos verdadeiros amigos, que começam a diminuir. É evitar uma neblina ocasional com pavor de ficar resfriado e, mesmo assim, falar aos outros que tem uma saúde invejável. É ter uma esperança juvenil nos ecologistas e perceber que suas opiniões estão na corda bamba, mas que não ter opinião formada o deixa contente.
Ser coroa é olhar com uma saudade displicente para o brotinho e com um carinho distante para o gagá, embora sinta-se um sanduíche – quente, frio, doce ou amargo – diante da boca que vai dar-lhe uma dentada.
Ser coroa é manter a chama acesa, mesmo que às vezes ela esteja, por um instante, apagada.
Saraiva Júnior
